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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012


Coitados dos galos
                  Marcos Fernando

O galo canta
não é anunciado um novo dia
nem o novo tempo que vem chegando
O galo canta para demarcar território
O galo canta para provar que está vivo

Dentro de cada sonhador mora um galo
Que
Às vezes canta
Às vezes briga pelo que considera justo

sábado, 14 de janeiro de 2012

Os ventos dos seringais
Esturram no meu telhado
anunciando
que o tempo dos temporais
Se aproxima
escumando feito cachorro doido!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

sErinGal LitEráRIO

O êxido do seringal

                      Marcos Fernando

Ele vevia sartifeito
Numa casa de para peito
Nos fundos do siringal
La tinha munta fartura
“Agua Boa” criatura
Era a colocação
Uma barraca humilde
Ao redor  duma restinga
Cercada de paxiúba
Arrudiada de seringa

Até que um dia sua véia
Abirobô das idéia
De pra cidade mudá
E ficô pono pissica
Até quele tiririca
Si zangô e vei pra cá
Vendêro tudo que tinha
Uma casa de farinha
E um mio pra dibuiá
uma rede puidinha
um pinico e um borná

Quanu chegaru na rua
Era tanta nuvidade
Que inté dona cumade
Cumeçô a si uriná
Cum numeru que tinha
Compraro uma taperinha
Era tão apretadinha
Que aparecia uma linha
Num baju de invasão
O dinhero foi mirrando
O sufoco apertando
As a fiinha mas nova
Tavum ficano formosa
Cairu no mundo então
Ur  menino mais taludo
Sem um pingo de istudo
Cumeçaro a fazer feio
Foru pegá no aleio
A puliça deu uns tiro
Lá si foi o Adelviro
O caçula Aderval mora há anos na penal
E a véia magoada se matou envenenada la detrás da privada
Com todo esse vexame
Acabô teno um derrame
Num sabia que na cidade
Tinha um magote de dificulidade

domingo, 18 de dezembro de 2011

pOemas do Marcos FerNANdo

Pai & filho
                         Marcos Fernando

Eu e meu pai
Vamos jogar futebol
E depois de cansados
Vamos pegar anzol
Botar isca
E pescar o sol
E quando a noite chegar
E a lua for se escondendo
Vamos pegar a viola
Pra ouvir as cordas gemendo!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

pOnderações do mArcos fERnandO



Na cuia grande 

                   Marcos Fernando



No seringal existe um pleno sentimento de fartura. Ter em abundância é  sinônimo de bem viver. Talvez seja um resíduo primitivista originário da índole indígena fundado no nomadismo coletor. E os povos se mudavam, feito índios,  de colocação em colocação, em busca de melhoria. Terras fartas. Onde tivesse bastante caça, látex  e boa água. Até o banho tinha que ser de cuia, de preferência na maior possível. As histórias, os gestos, enfim tudo do universo seringueiro é expresso no grau superlativo absoluto. O exagero faz parte do nosso léxico.

contOs do Marcos FErnanDo

O homem que trancava portas

Marcos Fernando

Era compulsivo. Tinha uma verdadeira obsessão por trancar tudo que via pela frente.  Refém dos seus medos com ele não ficava nada aberto. De tanto trancar tudo um dia, quando percebeu.... Estava trancado do lado de fora de si mesmo e o pânico se aproximava....

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

hiStórias NãO iNvEnTaDaS

Sobre “pilotagens”

                              (Marcos Fernando)


Durante uma visita ao pastor Lázaro  nos pusemos a dialogar sobre governança divina. Manifestei minha mais ampla crença que tudo ocorre de acordo com o plano  de Deus. Enfatizei que Deus é um bom piloto que conduz de forma tão plena que muitas vezes nem se consegue notar sua presença divina de tão sutil que ele é. E o pastor então me contou a seguinte história:  

Certa vez o pastor embarcou em um vôo do Rio de Janeiro (RJ) para Urberlândia (MG). Ao embarcar notou logo um simpático casal de crianças entre 5/6 anos entregues a tripulação confortavelmente acomodados nas poltronas ao seu lado. O tempo estava fechado e no trajeto houveram várias turbulências .
Durante a forte trepidação da viagem os pequenos desenhavam tranquilamente  não se importando nem  quando os lápis caíam. Não se incomodaram nem mesmo quando s mascaras caíram. O pastor suava frio e  impressionado e, curioso, quis saber das crianças a causa de tanta tranquilidade:
- É porque eu confio no comandante – disse uma das crianças -  É meu pai que pilota esse avião!



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Poemas do Marcos

Me espanto
no pântano
dos teu olhos
naufrago
no teus afagos
me afogo
no fogo
das tuas palavras

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

QuiLOMbos


Há outros quilombos
Em mim
A fugas inequicíveis
Escrevo na minha memória
As trajetória horríveis
Para que ñ se repitam
Meus ouvidos ainda gritam
Povoado de silêncios

sábado, 19 de novembro de 2011


Atoleiros

Marcos Fernando


Eu andava no barro
Vermelho
Esculpia na argila
Meus passos
No inverno era o inferno grudado
No verão era uma nuvem de pó
Até o dia em que apareceu no meio da estrada o negão estirado

terça-feira, 15 de novembro de 2011

hiStórias NãO iNvEnTaDaS


A prisioneira do queijo-roubado
                                                                 (Marcos Fernando)

Uma tarde dessas  numa gráfica, durante uma chuva torrencial, enquanto aguardava o retorno da energia me pus a conversa com um gráfico. Falando de chuva ele lembrou da alagação, durante o governo Flaviano, quando Rio Branco ficou em estado de calamidade pública. E me contou que ele, jovem na época, fora visitar a casa de uma amiga professora onde havia um quarto lotado de donativos desviado de seu destino: atender os atingidos pela alagação.
Tinha coisa de primeira. E um amigo seu, jornalista, se esbaldava comendo  uns suculentos queijos importados  e  os oferecendo. Ao recusar o jovem era taxado de babaca. Revoltado disparou um discurso inflamado contra aquela situação. Deixou claro, na frente da amiga, que era contra aquele tipo de coisa e que eles devia ser presos.

Anos depois reencontrou a professora já idosa. Ela o pegou pelo braço e disse:

“ Olha, eu não consigo esquecer  até hoje tudo aquilo que você me disse. Já fiz caridade. Virei evangélica, Já pedi perdão, e toda vez que eu vou me deitar dói na minha consciência ”


quarta-feira, 9 de novembro de 2011



Canção do mágico

Abracadabra
e o mundo se acaba
Perlimpim pim
tudo chega ao fim
O grande mágico
e o seu mundo
fantástico
Da sua cartola
coelho e bolas
Das suas Mangas
baralhos e bombas
Bum!!!

(Marcos Fernando in O ultimo espetáculo)

domingo, 6 de novembro de 2011

Crônicas da Ladeira

O gemido das carroças



“Cheguei a contar de trinta ... Quarenta carroças paradas debaixo da mangueira se preparando pra voltar a tarde pela estrada da Fontinele. De manhã não dava pra contar porque elas vinha pra rua muito cedo”
( Francisco Araújo, seu Neném)


Estradas de barro no meio do capinzal. Anuus saltitando em campo aberto. Sol a pino. De longe elas vinham gemendo. Carregadas. Feito velhas beatas murmurando benditos. Eram caixas de madeiras puxadas por bois obesos. Mansos. Lesos. Lerdos. Com nomes próprios. Quase da família. E as carroças eram lentas mas frequentes. Faziam parte do cenário. Entupidas de goma, carvão, mandioca, bananas, galinhas e pessoas. Deixavam veias esculpidas nos chão. Marcas de pneus desenhando destinos. De geração para geração... Famílias inteiras tangendo os bois e estalando chicotes.  Cigarras suicidas se esgoelando. A canção dos gemidos se misturava ao silêncio do vilarejo semi-despovoado. Semi Vivo. Pra curar a dor dos pneus o grafite do carvão. As carroças e seus gemidos perambulavam rua acima rua a baixo. A rua era apenas um rascunho.

(Marcos Fernando, Fragmento do Projeto de Bela – flor a Epitaciolândia)




Quadriculado
           (Marcos Fernando)

Quadri
       Qual lado?
Quadrico
        Um lado?
Quadri
          Colado?
Quadricaiado?
Quadricalado?
Quadrilacrado?
Quadricaalado?
Quadriclonado



quinta-feira, 27 de outubro de 2011

hIstórias qUe Eu nÃo iNvENtei


Quando os filhos ensinam os pais

                               Marcos Fernando

 Ele morava em Nova York, nos Estados Unidos. Era de classe média. Em sua família ninguém chegara a universidade até o dia em que sua mãe decidiu que ele iria ter ensino superior. Para isso a humilde mãe, que trabalhava muito,  passou a  ajudar a criança nas tarefas escolares. Teve que trabalhar como garçon para bancar os estudos. Com o tempo o nível de dificuldade foi aumentando e a mãe já não tinha mais conhecimento para ajudar o filho. Foi ai que o filho passou a se dedicar mais a estudar para poder ensinar a mãe. E assim aprendeu o suficiente para formar e se tornar um   respeitado profissional PHD em psicologia.
Hoje ele anda pelo mundo como professor visitante socializando seus conhecimentos no mundo acadêmico.
Ele nunca foi meu professor. Nunca dialoguei com ele. Mas essa foi uma das maiores lições que um professor já pode me ensinar.

pOnderAçÕes do Marcos Fernando


O que andas lendo?
                            Marcos Fernando

Qdo entrei a primeira vez na casa do líder seringueiro Chico Mendes, logo na sala bati os olhos em uma estante humilde . Carregada de livros. Prenhe de conhecimento. Chico sabia q para construir soluções é preciso ler o mundo. E preciso ter embasamento para se contrapor aos desmandos e propor soluções inteligentes.
Pela estante de Chico Mendes deu para se ter uma dimensão do apego pelo conhecimento
Um grande líder precisa está mt bem familiarizado com os conhecimentos do povo e dos estudiosos.
Quem quiser descobrir quais são os livros q passe lá.

pOemAs do mArcOS fEnanDo



Nó gentos

          Marcos Fernando

  Pessoas
      Cães
  Canoas
 Cavalos
Gravatas
     Laços
Cadarços

Há muitas coisas
Amarradas no mundo!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

hiStórias NãO iNvEnTaDaS




O Homem que enterrava livros

              Marcos Fernando

Era plena ditadura. Era proibido rir, pensar. Questionar o regime. Era proibido ser livre! Ele ousava alimentar o seu cérebro e seu coração com linhas secretas e subversivas. Os livros possuíam capas vermelhas e falavam de pessoas que ousaram sonhar. Por isso passou a ser procurado pela polícia. Perseguido. E para se manter vivo, para continuar alimentado suas utopias, resolveu eliminar as provas que o incriminavam,. sob os atônitos olhares de uma criança, ele enterrava no fundo do quintal seu acervo revolucionário. Pesaroso feito quem sepulta a própria mãe.

Questionado pelo olhar curioso de um criança:
- Tio, o senhor não gosta dos livros? Porque o senhor tá fazendo isso com eles?!
- Não. Não estou sepultando minhas utopias...Estou apenas semeando meus ideais!

sábado, 8 de outubro de 2011

hiStórias NãO iNvEnTaDaS

Mãe é guarda-chuva

                   (Marcos Fernando)

Em conversa com a professora Bárbara Orlanda ela me falou de sua infância difícil e sofrida. Me contou que uma vez morou em uma casa que chovia mais dentro do que fora. Quando a chuva vinha chegando a casa já estava toda molhada. E ela pegava seu casal de filhos colocava os dois nos braços e abraçando-os os protegia e os acalentava até que a chuva parasse.

cRÔNicas do MarCOS FERnando



A árvore que dava dinheiro.
Marcos Fernando

Era uma árvore enorme. Centenária. Ficava na reserva legal do que sobrou do antigo seringal Santa Fé. Era preciso  três homem de mãos dadas para abraçá-la. No auge dos seringais dera muito leite. Quatro bandeiras... Enriqueceu muita gente. Gerou fortunas. Matou a fome de muitos seringueiros. Trazia no corpo as marcas das lâminas tatuadas.
Olhei pra ela estendida ali no chão. Fatiada em rodelas como se fosse uma cebola de cabeça. O que sobrara de sua seiva se agarrava a areia como um náufrago se agarra aos barrancos em busca de socorro.
Feito espinha de peixe as lágrimas atravessaram na minha garganta.